Aroe

Termo polissêmico central na cosmologia bororo. Pode designar coisas leves como pluma; alma e seu destino no além; espíritos/fantasmas e seres imaginários; cadáver; antepassados e epônimos de clãs; seres primaciais/privativos e direitos de primazia; além de categorias sociais e rituais ligadas à organização em clãs, metades e representações.

qualquer coisa leve como pluma; 2. alma, espírito, fantasma; 3. de qualquer ser imaginário; 7. de cada membro do clã dos Bokodori Ecerae; 8. de cada membro da tribo Bororo; 9. de cada ser primacial ou privativo de cada clã; 10. de cada um dos epônimos dos clãs; 11. dos clãs heterônimos e exógamos, cujos membros podem contrair casamento entre si; 12. de cada representação fúnebre ou não; 13. de cada ator de uma representação qualquer; 14. de qualquer monstro lendário.

Aroe, alma

Destino da alma depois de separada do corpo: reino dos mortos

Os Bororo creem numa existência ultraterrena que se perpetua no reino dos mortos. Esse reino é imaginado como duplo: uma parte a oriente, governada por Itubore, lendário chefe chamado Akaruio Boroge quando vivo; e outra a ocidente, presidida por Bakororo, outro antigo herói denominado Baitogogo antes de morrer. A alma pode escolher a morada que quer e, logo depois da morte do indivíduo, vai para os reinos de Bakororo e de Itubore.

Durante a viagem, visita várias localidades. Nessas peregrinações, é alvo de ameaças e sustos provocados por manifestações e fantasmas aterradores. Assim, por exemplo, encontrará o Aíje, Espírito Terrífico, ou então verá enormes rochas que se movem, ou galhos secos e abandonados que se agitam.

Nesses terrores, porém, é amparada pela presença de parentes, que carinhosamente a avisam da conveniência de não prestar fé àqueles fenômenos, pois tudo se reduz a brincadeiras de mau gosto, e lhe indicam quais são os seus autores. A alma, aproveitando-se de tais insinuações, chama pelo próprio nome os que se escondem sob a aparência de espírito, de pedra ou de galho; e esses seres desaparecem, ficando em seu lugar o indivíduo brincalhão, que é assim desmascarado.

Vida da alma no reino dos mortos

A alma no além-túmulo tem vida em tudo semelhante à presente, inclusive no que se refere à organização tribal e às divisões em clãs e metades. Não lhe faltam as alegrias e as contradições da nossa existência, nem a necessidade de se alimentar, de beber, de caçar e de pescar. Para lenir, porém, as inevitáveis penas e contratempos da nova realidade e satisfazer seus desejos, tem ao seu alcance meios mais aptos e mais poderosos do que possuía durante a vida.

Conceitos errôneos

Steinen, sob o título "Seele und Fortdauer nach dem Tode" (A alma e a vida de além-túmulo), fornece noções muito confusas e até falsas acerca de conceitos tão difíceis como sejam o de alma e o de vida de além-túmulo entre uma tribo de aborígenes. Afirma categoricamente que a alma se chama "bope". Há um evidente mal-entendido: a alma denomina-se aroe.

Bope é cada um dos espíritos que fazem parte do sistema religioso representado pelo bári 'xamã dos espíritos' (Steinen 1897: 397).

Metempsicose

A doutrina de uma metempsicose voluntária e passageira é crença profundamente arraigada na mentalidade indígena. As almas dos mortos podem, pois, encarnar-se em um animal qualquer, cuja habilidade natural lhes permita obter facilmente uma fruta ou uma caça de seu agrado. Na aldeia bororo, a criação de araras e papagaios domésticos tem justamente a finalidade de proporcionar animais que complacentemente forneçam às almas, quando encarnadas neles, os cocos e os frutos que desejam.

Note-se, porém, que tais animais domésticos, pelo fato de, às vezes, encarnarem almas, não são de modo algum considerados tabus, embora sejam respeitados pelas vantagens que proporcionam ao proprietário, fornecendo-lhe matéria-prima para adornos à base de penas. Todavia, nunca são matados e, embora morram por um acidente ou morte natural, não servem para a alimentação. Quando selvagens, não gozam de nenhum privilégio particular.

Conceitos errôneos

Steinen ensina que os Bororo, depois da morte, transformam-se em araras vermelhas. Isso, em parte, é verdade, pois, como dito, a alma bororo por uma metempsicose temporânea pode encarnar-se em certos animais e, por conseguinte, também em ararapirangas, mas não só nestas. Cruz faz considerações fantasiosas e conclui recomendando aos civilizados que respeitem araras e sucuris, pois nelas estariam encarnadas as almas dos Bororo defuntos.

Essa advertência não tem valor porque os próprios Bororo matam araras e sucuris todas as vezes que a ocasião lhes é propícia (Steinen 1897: 398; Cruz 1944, XCVIII: 127-30).

Culto das almas: seu xamã

O culto das almas move os parentes a conservarem como lembrança de cada defunto um → powari aroe, instrumento musical de sopro de palheta batente, preparado por algum parente próximo. Há para as almas inúmeras festas, cantos, danças, alimentos e banquetes. A máxima expressão do culto manifesta-se nos solenes ritos fúnebres que se prolongam por mais de um mês.

O elo de união — verdadeiro médium entre os vivos e os mortos — é o → aroe etawara are, xamã das almas, que muitíssimas vezes evoca os finados, os quais por meio dele se comunicam com os mortais. Apesar do excepcional culto das almas, nunca do finado é pronunciado o nome: substitui-se por outro, formulado depois da morte. Para noções sobre esse novo nome, ver → adugo bíri, pele de jaguar.

Interpretação errônea

Steinen, depois de uma série de interpretações baseadas em grande parte nas declarações de seu informante Clemente, conclui pela existência de uma crença segundo a qual o morto vem buscar o vivo: "der Tote den Lebenden holt" (Steinen 1897: 399). Nós não pudemos absolutamente verificar o alcance dessa asserção. Parece querer insinuar que as cerimônias em honra às almas são feitas para desviá-las da execução desse desejo.

Salvo o temor que um defunto causa aos vivos, mesmo entre os civilizados, não há outro que atinja os Bororo, os quais, pelo contrário, dedicam inúmeras festas, caçadas e manifestações à memória do finado.

Aroe, espírito ou fantasma

Deve-se antes de tudo fazer uma rigorosa distinção entre os → maereboe, os bope e os aroe 'espíritos ou fantasmas'. Os → maereboe e os bope são relacionados com o maereboedoge etuo 'Pai dos Espíritos'; dele dependem e a ele obedecem. Seu xamã é o bári, o qual tem o poder de invocá-los e de aplacá-los.

Os aroe 'espíritos' não têm xamã, não dependem de nenhum princípio superior e nenhuma relação têm com o reino dos espíritos. Devem-se também isolar do conceito de almas, pois estas habitam num reino próprio e seu xamã tem o poder de invocá-las e pode ser por elas possuído. Não se devem, outrossim, confundir com alguma forma impessoal ou com uma força superior vitoriosa.

Por conseguinte, o conceito de "espírito" bororo não encontra a sua solução no de mana, wakanda, manitu, orenda ou bolylya. Talvez seja um pouco de tudo isso, mas não se pode afirmar categoricamente que realmente o seja. É acertado, porém, que os aroe 'espíritos' sempre causam temor aos Bororo e, por uma força desconhecida que emana deles, podem provocar graves males, até a morte.

Encarados do ponto de vista de sua capacidade maléfica, apresentam uma hierarquia não de dependência, mas somente de poder. Assim, por exemplo, o espírito Aíje é talvez o mais terrível e pode ser visto a qualquer momento em proximidade das águas. Outros são menos prejudiciais e apareceram apenas uma vez, segundo as afirmações das lendas.

Alguns presidem a fenômenos meteorológicos, como os Bytaodoge, que produzem as chuvas. Exemplo: o espírito Jakómea, que causou uma inundação geral. Outros foram seres lendários e misteriosos, como Bytoriku, o qual chegou até a fecundar uma mulher.

Outros habitam as florestas, como Apido ou Iworo, que é um espírito dos acurizais. Desse breve ensaio, pode-se concluir quão difícil seja definir aroe 'espírito'. É fácil perceber a diferença, por exemplo, entre Bytoriku — que foi, diríamos nós, uma espécie de dragão, morto por um Bororo — e os espíritos das chuvas Bytaodoge, os quais são imaginados como personagens providas de longas barbas e cabelos, cuja exsudação não é nada mais do que a chuva.

A crença dos Bororo nos espíritos pode ser um primitivo naturalismo, pois eles admitem que nas águas e nas florestas possam aparecer certos espíritos; também pode lembrar o animismo, sendo que nas lendas acena-se a animais-espíritos que falaram. Em consequência de imaginárias ou reais aparições de um aroe, houve Bororo que adoeceu e, em breve tempo, quase misteriosamente, pereceu. Contra a maléfica influência dos espíritos, os Bororo conhecem muitos tipos de → erubo 'vegetal mágico', aos quais atribuem virtudes destinadas a preveni-la ou a paralisá-la.

Fornecidos deles, poderão assistir a representações julgadas perigosas; e as mulheres e crianças, a atos proibidos, embora sempre às escondidas neste segundo caso. Os vegetais mágicos, em geral embiras, cipozinhos ou coisa semelhante, são usados como braceletes, pulseiras, colares e tornozeleiras. Com o carvão pulverizado das raízes de vários outros, traçam riscos, especialmente no rosto e na fronte.

Elenco de espíritos

Durante nossa permanência com os Bororo e em repetidas excursões, pudemos organizar um elenco de nomes de alguns espíritos, que transcrevemos: Aije; Apido (denominado também Iwóro); Apumoio; Aroia; Aturua; Bakarae; Barubaru; Bokomydoge; Boku Mogodoge; Bokwojeba; Buregodyrewuge; Byre Ikabeo; Bytoriku; Ciriwore; Ekoe; Enogyjeba; Erá Kujagu Iepa; Ikuie Momodoge; imedu; Inorubo; Iwara Arege; Irowo (denominado também Apido); Jakomea; Joware; Karaiwadoge; Kido; Kirogo; Kogaekogaedoge; Kuiadoe; Makago; Meri Jokimoio; Moto Body; Mygyio; Oraribo; Perigara (denominado também Tarigara); Tabó; Tarigara (denominado também Perigara); Tugo; Tugó; Upo Rugoio; Utobaga. Sem dúvida este elenco é incompleto, mas pode auxiliar o estudioso.

Para muitos dos nomes discriminados encontrar-se-ão explicações satisfatórias na forma correspondente. Para outros foi impossível penetrar na mentalidade bororo, já de per si muito confusa a este respeito.

Aroe, cadáver

Logo que a alma abandona o corpo, este passa a ser considerado aroe 'cadáver', cuja vista é imediatamente interditada a mulheres e crianças. Para maiores noções, ver itaga 'funeral'.

Aroe, antepassado

Há antepassados ilustres que foram grandes chefes e que deram o próprio nome a clãs e subclãs. Identificam-se às vezes com heróis lendários, como Itubore e Bakororo. Essas personagens, por pertencerem ao reino do além, são também denominadas aroe.

Aroe, ser primacial ou privativo de cada clã

De acordo com as narrações de certas lendas e tradições, o Bororo que viu certos seres ou fez por primeiro certos objetos reservou acerca deles direitos de primazia e de propriedade, mas não sempre de uso, para si e para os membros do próprio clã. Assim, por exemplo, o Bororo que por primeiro viu o kuje 'mutum' disse: imire itanagodymode ji rugadu ('quanto a mim, este já será meu'). O clã dos Iwagududoge tem, por isso, a primazia sobre os mutuns.

Tal primazia não traz, porém, nenhum direito ao proprietário em se tratando de animais, de modo que qualquer desses seres pode ser matado e comido, sem restrição ou lesão dos direitos alheios. No caso de objetos que sirvam de enfeite, como as penas de kurugugwa 'gavião-caracaraí', somente os membros do clã possuidor podem usá-las. Há um fato que esclarece outra faceta dos conceitos expostos.

Nos anos de 1902 e 1903, durante os primeiros incertos contatos dos missionários salesianos com os Bororo Boku Mogorege, habitantes do Planalto, gerou-se entre estes uma dupla corrente de antipatia e simpatia. Os mais ferrenhos, chefiados por Jirie ekurewu (Clemente) do clã dos Iwagududoge e o xamã dos espíritos Oca Kudyrewu (bari Bonito), queriam sumariamente eliminar os brancos. Os outros, chefiados por Meriri Okwoda (Joaquim), do clã dos Paiwoe Cebgiwuge, e por Meriri otodyia, alcunhado Uke Iwagy Uo (o Major), também do clã dos Paiwoe Cebgiwuge, desejavam uma coabitação pacífica.

Nas várias discussões prevaleceu a vontade de Meriri Okwoda, que se advogava direitos de propriedade sobre os salesianos, pois os tinha visto por primeiro e por isso lhe pertenciam. Muitos objetos privativos dos clãs não são usados, em geral, apenas pelos membros dos mesmos, mas também por outros que se tornaram dignos de recebê-los de presente por alguma ação especial, como, por exemplo, pela matança de uma onça.

Quem recebe o presente tem direito de usá-lo como se fosse de seu subclã ou clã.

Confusões oriundas da má interpretação da forma aroe (ser primacial)

Nesta acepção, a forma aroe gerou muitíssimas confusões com aroe no sentido de antepassado, provocadas em parte pela interpretação errônea de Colbacchini da lenda de Ipare Eceba (Colbacchini 1925: 5-6). Afirma este que o Bororo Ipare Eceba, tendo visto por primeiro alguns socós pretos e vermelhos, tomou para si aqueles aroe (almas) e considerou aquelas aves como portadoras das almas dos seus antepassados.

O erro está justamente em atribuir a significação de alma à forma aroe, que aqui significa apenas animal sobre o qual o descobridor tem uma primazia, como foi explicado. Lévi-Strauss, por conhecimentos pessoais e alicerçado também em Colbacchini, faz confusas lucubrações sobre o mesmo assunto (Lévi-Strauss 1936, XXVIII: 298-301).

Elenco de alguns seres primaciais de cada clã

Metade dos Tygarege. Clã dos Baadojebage Cebigiwuge: atubo (veado-galheiro); bace kogyio (tuiuiú); bokwadí (jatobá); bope (espírito); byiogo (piranha); butaodoge (espíritos); butaodoge edogodogo (vard. de pássaro); eregejeje (vard. de pica-pau); kadomo (vard. de martim-pescador); kaibori (mão-de-pilão); keakorogo (araçá); korao (papagaio-verdadeiro); kurege (aves atualmente desconhecidas aos Bororo); maereboe (espíritos); meá (tabaco); Meri (Espírito Meri); meri2 (tié-fogo); monoko (narceja); myiao bori (cera de abelha); nonogo oto bigodyrewu (vard. de urucú); o corewu (socó-escuro); parigogo (jacu); pobu (variedade de pacu); reá (tatu); etêuwai (jacaré).

Clã dos Baadojebage Cobugiwuge: adugo (jaguar); apido kyrirewu (acuri adulto); Ari (espírito Ari); aribo ekurewu (apara-pedra); Itubore (herói lendário); iturawore (tatu-da-floresta); iworo (bebida de acuri); okoge jerirgi are (vard. de dourado); o kujagurewu (socó vermelho); okwaru (tatupeba); Tabo (espírito Tabo). Clã dos Bokodori Ecerae: akigu (algodão); aogwa (tico-tico-rei); barae (não indígena); baruare varoedade (de pássaro); bataro (joão-pinto); boaro (tipo de brinco); bokodori (tatu-canastra); Cibae Eiaro (nome de um morro); cinadatao (cancã); ika (instrumento musical, flauta); kadogare (variedade de martim-pescador); koe (tipo de cinto e colar); koerewu (tipo de cinto e colar); okoge (variedade de dourado); poiwo (cânula para servir o vinho de palmeira acuri); ruwo (grande caracol).

Clã dos Kie: aigo (onça-parda); aipoburewu (jaguatirica); amo (tapiti); apodo (tucano); apy (paça); bacieje (guaçuti-macho); bapo (maracá); bokodori corewu (tatu-canastra escuro); jure (sucuri); kaia (pilão); ki (anta); kudoro (ararúna); kuo (jaó); okoge corewu (variedade de dourado); pari ema pobogo (veado (guaçuetê)); tuiotorogo (variedade de pássaro). Metade dos Tygarege. Clã dos Apiborege: akurara (pacupeba); aroe eceba (gavião-real); atu (concha); aturebo (conchinha); bace (garça); baku (abanico); beo (siriema); cugui (araçaripoca); Ikuiemomo (espírito Ikuiemomo); Ikuieri (nome de um morro); Ipareri (nome de um morro); kurugugwa (gavião carcaraí); toroa (variedade de gavião); tubore (lambari).

Clã dos Aroroe: aije (zunidor de madeira); aroro (variedade de larva); bace iwoi (variedade de tiliácea da floresta); Bakororo (herói lendário); bakuguma (gavião-requinta); batagaje (biguá); boro (pequeno caracol); ierarai (guaxinim); iparere iwoi (variedade de entrecasca); ipie (ariranha); ipocerewu irara jomo (variedade de lontra); jugo (queixada); jyi (caititu); kudugi (variedade de macaco); mano (caeté e cilindro de seus talos para certas representações); mano2 (variedade de gavião); Marugori (nome de um morro); meridabo (furão); meri ekurewu (ouro); metugu (pomba silvestre); moribo (cão silvestre); nabyre (ararapiranga). (A entrada original prossegue com o Clã dos Iwagududoge.) Aroe (aro 'pluma' + e 'pl').

Referências

  1. Albisetti, César and Ángelo J. Venturelli (1962a). *Enciclopédia Bororo I*. Museu Regional Dom Bosco.
  2. Colbacchini, Antonio and Cesar Albisetti (1942a). *Os Boróros Orientais: Orarimogodogue Do Planalto Oriental de Mato Grosso*. Companhia Editora Nacional.
  3. Steinen, Karl von den (1894). *Unter Den Naturvölkern Zentral-Brasiliens: Reiseschilderung Und Ergebnisse Der Zweiten Schingú-Expedition 1887-88*. Dietrich Reimer.

Ver também

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