Itaga

Nome do ciclo funerário bororo. Inclui um conjunto longo e ritualmente estruturado de cerimônias: inicia-se com sinais de luto (entre eles, deixar o cabelo crescer) e culmina com a limpeza e ornamentação dos ossos, a preparação do cesto funerário (Aroe J'aro) e o sepultamento definitivo (frequentemente em água).

Itaga — Funeral e ciclo funerário

Itaga é o nome do ciclo funerário bororo. A palavra é associada à ideia de corpo e cabeleira ( ito “corpo” + aga “cabeleira” ): o funeral envolve, entre outras coisas, o luto marcado pelo cabelo (deixar crescer; regras de corte) e a imagem das almas/espíritos como seres ornados de longa cabeleira.

Os funerais formam um ciclo que, em geral, dura cerca de trinta dias, mas pode ser ampliado por motivos práticos (viagens, mau tempo) ou sociais (tensões e disputas internas). A conclusão depende de condições favoráveis.


Variações importantes

  • Quando não há ossos (morte longe da aldeia, por exemplo), os Bororo não deixam de prestar as homenagens: realizam o ciclo com adaptações, tomando como foco objetos pessoais do falecido (armas, enfeites etc.).
  • Crianças pequenas: defuntos com menos de cerca de seis anos costumam não receber o ciclo completo (os ossos seriam muito frágeis). Nesses casos, descreve-se um ritual mais breve: ornamentação com plumas, cantos, colocação em aroe jaro (cesto funerário) e deposição em água.
  • Gestante: segue-se o conjunto de regras consideradas normais.
  • Morte socialmente condenada: quando alguém é eliminado por ser considerado “mau”, pode haver exclusão ritual: descarte (água/fogo) ou inumação sem solenidade fora da aldeia.

Etapas do ciclo (visão geral)

  1. Agonia
  2. Morte
  3. Funerais (enterro temporário + período intermediário + tríduo final + paroxismo)
  4. Inumação definitiva
  5. Notas críticas / variações

Etapas do ciclo (descrição detalhada)

Observação: a seguir, a descrição está em português atualizado, mas preserva a ordem, a lógica e os nomes rituais do seu texto-base.

1) Agonia

1.1 Ornamentação do agonizante

Quando uma pessoa entra na fase final da doença — às vezes dias antes da agonia propriamente dita — parentes e amigos se reúnem ao redor.

  • Se a pessoa estiver com os cabelos crescidos por luto, eles são cortados de acordo com as regras tradicionais.
  • Em seguida, o corpo é ornamentado: pasta vermelha de urucum, plumas coladas com kidoguru (resina), pinturas corporais e faciais.
  • A cabeça pode ser coberta com um boe etao bu, “capacete” de plumas, como em uma grande festa.
  • No caso de mulheres, podem aparecer desenhos e pinturas ligados ao subclã, especialmente quando há relações cerimoniais como mori (recompensa/retribuição) associadas a feitos do marido.

1.2 Execução do canto Boe Ewimode Dukejewu Roia

Quando a agonia começa, todos entoam (de modo salmodiado) a primeira parte de um canto breve, acompanhado por ka (“tambor”). A segunda parte é recitada pelos chefes de cada clã: cada grupo tem sua composição própria, sob a denominação genérica Boe Ewimode Dukejewu Roia, “Canto da Agonia”.

Os chefes se apresentam um por vez, ao som do maracá, seguindo uma ordem tradicional (que varia conforme a metade exógama/clãs do moribundo). Durante a agonia, os cantos são executados com voz “submissa” e cessam logo após a morte.


2) Morte

2.1 Cobertura do cadáver e primeira execução dos Marenarúie

No instante da morte, o falecido passa a ser considerado aroe (“alma”). Como tal, seu corpo não deve ser visto por mulheres e crianças: por isso, ele é coberto imediatamente com uma esteira; um abanico pode ser colocado sobre o rosto.

A mãe (ou uma parenta próxima) anuncia oficialmente a morte com gritos altos. Em seguida, chefes de vários clãs, um por vez, recitam cantos chamados Marenarúie, próprios dos finados, em ordem tradicional.

2.2 Prantos e escarificações

Inicia-se então uma cena intensa: parentes e amigos realizam escarificações (cortes no peito, braços, pernas, coxas, rosto), deixando o sangue cair sobre o corpo coberto. Usam-se instrumentos como fragmentos de quartzo, dentes de piranha e, mais recentemente, pedaços de vidro.

A escarificação cria uma relação particular: quem se escarifica contrai com os pais do defunto um tipo de parentesco de honra, que não altera regras de casamento, mas cria direitos de tratamento (chamar de pai/mãe; ser chamado de filho).

Os objetos cortantes são entregues aos pais do finado; tentam usá-los, mas são contidos. Depois, tais objetos podem ser destruídos (ao fogo, pulverização etc.). Enquanto isso, ecoam prantos comuns e prantos rituais.

2.3 Primeira execução do Roia Kurirewu

O Roia Kurirewu é um canto solene e longo, reservado a ocasiões maiores. Nesta fase, executam-se apenas algumas estrofes, na casa do finado, acompanhado pelo bapo kurirewu (grande maracá). Os cantores, aqui, não usam ornamentos.

2.4 Colocação de flechas e arcos sobre o cadáver

Há regras conforme a posição do morto:

  • Se o morto for esposa ou filho de um homem, ele quebra suas próprias flechas e as coloca sobre o cadáver, junto com o arco inteiro.
  • Se o morto for homem, depositam-se sobre ele seu arco e suas flechas inteiros.
  • Parentes acrescentam flechas partidas e arcos inteiros.

Antes da morte de um homem, a esposa ou uma parenta pode “preparar” armas e enfeites com resina (kido guru) e penugem branca ou preta. Se a morta for mulher, colam plumas em seus enfeites e no báku (bandeja feminina).

2.5 Incineração de objetos mais gastos

Perto da casa do finado, parentes acendem fogo e queimam objetos mais gastos e menos valiosos usados em vida.

2.6 Transladação do cadáver para o Bororo (pátio)

Ao pôr do sol, homens levantam o corpo na esteira e o levam ao pátio central, com vocalizações rituais que imitam a voz das almas. Se a morte ocorre à noite, algumas etapas podem ser abreviadas.


3) Funerais

3.1 Primeira inumação (inumação temporária)

3.1.1 Primeira noite depois da morte

Segunda execução do Roia Kurirewu
Agora, no pátio, a execução é completa, e os cantores aparecem profusamente ornados (incluindo pariko, grande diadema de penas de arara).

Segunda execução dos Marenarúie
O chefe repete as palavras e convoca um parente do finado para cantar; se ele não tiver competência, escolhe-se outro cantor/chefe. Repete-se o procedimento para os demais Marenarúie.

Primeira execução do Cibae Etawadu
Ainda no pátio, entoa-se com solenidade o canto Cibae Etawadu e outros, prolongando-se pela noite.

Cantor durante um funeral

3.1.2 Primeiro dia depois da morte

Primeira execução de um Kiege Barege
Ao romper da aurora, um cantor, acompanhado por um grupo de mulheres, entoa um canto do conjunto chamado Kiege Barege.

Preparação da cova
Mulheres da metade oposta à do finado cavam uma cova rasa no pátio.

Envolvimento do cadáver ao canto do Bakure Enogwari
Enquanto preparam a cova, os homens envolvem o cadáver nas esteiras, amarrando com embiras ao canto Bakure Enogwari (também chamado Aroe epododu kejeboe, “canto para o envolvimento do cadáver”). O corpo preparado fica como um fardo fusiforme.

Sepultamento temporário
O corpo é sepultado sem grande solenidade adicional. Essa inumação é temporária, para acelerar a decomposição e permitir que, cerca de um mês depois, a carne seja retirada dos ossos com raspagem e lavagem.

Refeição
Em geral, cada um come em sua casa ou realiza uma pequena caçada para obter alimento.

Cantos no bai mana gejewu (casa central)
Na casa central executam-se cantos privativos dos membros da metade oposta à do finado, ao redor dos objetos que ele usou e que não foram incinerados.

Evocação das almas
Por volta da tarde, o Aroe etawara are (xamã das almas) evoca as almas ao ritmo de seu maracá menor (baporogu) e instrumentos de sopro (pana, etc.). Recebe noa kuru (“água com tabatinga”, adoçada), bebe parte, fuma um cigarro e reserva bebida e cigarro para o futuro Aroe maiwu.

Canto Roia Mugurewu
Um chefe de canto, com mulheres, executa um fragmento de Roia Mugurewu (cantos com cantores assentados).

Terceira execução de um Marenarúie
O pai ou parente do finado repete palavras do Marenarúie, e o mesmo cantor do Roia Mugurewu o canta, acompanhado por mulheres.

Objetos do finado na cabeceira do túmulo
Os homens levam objetos, bebida e cigarro reservados para a cabeceira do túmulo. É um momento interditado às mulheres (elas se recolhem, avisadas pelo som de instrumentos como ika e bapo kurirewu).

Refeição dos iadudoge (representantes de antigos finados)
Preparam-se bebida e cigarros para os representantes de antigos defuntos, “alimentando” as almas personificadas por esses representantes.

Escolha do Aroe maiwu
Escolhe-se um jovem de valor que personificará a alma do finado nos funerais e, de certo modo, também em etapas futuras.


3.2 Período entre a primeira inumação e os últimos quatro dias

Irrigação da cova
Os parentes irrigam o túmulo (quando necessário) para acelerar a decomposição. Prantos rituais podem ser renovados na casa do finado.

Início das caçadas
Após o sepultamento temporário, iniciam-se caçadas coletivas/individuais, frequentemente com a finalidade de obter uma onça que funcionará como mori (vingança/recompensa). O Aroe maiwu tem papel especial nessas caçadas.

Representações
No intervalo, realizam-se representações em homenagem às almas (muitas facultativas, conforme vontade do chefe e prestígio do morto). Algumas tendem a ser obrigatórias na fase final.

Verificação da decomposição + novo Roia Kurirewu
Após cerca de uma lua (~20 dias), parentes homens abrem o túmulo na região da cabeça para verificar a decomposição, repetindo Roia Kurirewu de modo abreviado.

Determinação da data e da ordem final
Se a decomposição estiver adiantada, marca-se a data e a ordem das cerimônias finais; caso contrário, recobre-se o túmulo e repete-se a verificação mais tarde.


3.3 Dia que precede o tríduo final

Realizam-se preparativos para a representação conhecida como Marido / Dança do Buriti, incluindo a confecção de elementos cerimoniais.


3.4 Tríduo final que precede a inumação definitiva

3.4.1 Primeiro dia do tríduo

  • Grande representação do Marido / Dança do Buriti.

3.4.2 Segundo dia do tríduo

  • Caçada breve para alimentos.
  • Preparação dos aijedoge (zunidores de madeira).
  • Vedação da casa central para atos interditos a mulheres e crianças.
  • Primeira execução do canto Ekurewuge e translação do cesto (da casa da cesteira para a do finado).
  • Primeira manifestação dos Aijedoge Aroe (espíritos terríficos), com zunidores.

3.4.3 Noite que precede o terceiro dia

  • Cantos dirigidos pelo Aroe etawara are (xamã das almas), com instrumentos e convites aos Aijedoge.
  • Primeira execução do Bure Etawadu.
  • Execução do canto Aije Paru (por volta da meia-noite).

3.4.4 Terceiro dia do tríduo

  • Quarta execução dos Marenarúie.
  • Transladação formal da cesta funerária para o bai mana gejewu.
  • Cerimônia dos powaridoge aroe (instrumentos de sopro).
  • Convites e preparativos para a segunda manifestação dos Aijedoge.
  • Execução do canto Jokurega.
  • Dança do Aroe maiwu com a cesta.
  • Transladações sucessivas da cesta (casa central ↔ casa do finado), com nova execução de Cibae Etawadu.
  • Possível imposição do ba (estojo peniano) a rapazes púberes.
  • Primeira execução do canto Aroe Enogwari na casa central.
  • Ornamentação intensa do Aroe maiwu (torná-lo irreconhecível).
  • Segunda execução do Bure Etawadu e dança no pátio.
  • Execução do Okudowuge e corrida ritual ao aije muga.
  • Segunda manifestação: Representação dos Aijedoge Aroe (entrada, aproximação, homenagem ao Aroe maiwu, uso dos zunidores; mulheres e crianças escondidas).
  • Incineração do arco e flechas do finado (com variações se o falecido tiver status ritual específico).
  • Banho coletivo (purificação/recuperação).
  • Sinal do término (batidas com esteiras no chão) e refeição.

3.4.5 Noite que precede o paroxismo

  • Quinta execução dos Marenarúie.
  • Toque do ika (instrumento de sopro).
  • Segunda execução do Aroe Enogwari.
  • Convite oficial para a cerimônia de ornamentar os ossos.
  • Execução de Roia Mugurewuge (cantos com cantores assentados).
  • Evocação da alma pelo Aroe etawara are, convidando-a a ocupar o cesto.

3.5 Paroxismo dos funerais (sobre os ossos)

  • Segunda execução do Kiege Barege ao amanhecer.
  • Segunda execução do Ekurewuge, com exumação e limpeza dos ossos.
  • Transporte dos ossos e escarificações.
  • Quarta execução do Roia Kurirewu (com restrições a mulheres/crianças).
  • Execução de ika ako e terceira execução do Aroe Enogwari.
  • Refeição dos homens.
  • Ornamentação parcial do crânio.
  • Execução de Roia Mugurewu Merijiwu e escarificações.
  • Construção de um tabernáculo interno (bái ía) e evocação solene da alma.
  • Destruição do tabernáculo e terceira execução do Cibae Etawadu.
  • Nova execução de Roia Mugurewu Merijiwu.
  • Quinta execução do Roia Kurirewu.
  • Ornamentação final de ossos e crânio e colocação na aroe jaro (cesta funerária).
  • Colocação do kodobie (faixa de embira) sobre a cesta.
  • Transladação da cesta da casa central para a do finado e conclusão dessa fase.

3.6 Inumação definitiva (fechamento do ciclo)

Após alguns dias, marca-se a data da inumação definitiva.

  • Na véspera, executa-se o canto Juredoge.
  • Ao amanhecer, entoa-se um Kiege Barege associado ao transporte do cesto para a água; seguem-se execuções de Marenarúie.
  • O Aroe maiwu recebe a cesta e parte com o cortejo para o aroe eiao (cemitério), frequentemente uma lagoa/remanso: a cesta é perfurada para a água entrar, amarrada a uma vara e fixada no fundo, parcialmente no lodo.
  • O xamã permanece para invocar as almas e pedir que recebam o novo morador do reino dos mortos.

Entrega do ae (“cabelos”) ao Aroe maiwu

Ao retornarem (muitas vezes ao pôr do sol), parentes do finado entregam parte dos cabelos (ae) ao iadu e parte a uma parenta próxima. O representante do finado entrega os cabelos recebidos a uma parenta, que os passa a alguém para fiar e transformar em cordel; depois o artefato volta ao Aroe maiwu.

Término do ciclo

O encerramento do Iága inclui, com frequência, a destruição pelo fogo de objetos do finado e até da casa associada (variando conforme sexo/estado civil), além de esforços para reduzir marcas materiais da presença do morto (lugares de assento, apoios etc.).


Observação final

O Iága é uma sequência extensa de atos encadeados que reorganiza luto, relações sociais e o destino do corpo/ossos por meio de cantos, representações e papéis rituais (especialmente o Aroe maiwu e o Aroe etawara are), culminando no sepultamento definitivo do cesto funerário e na transição do regime de memória do morto.

Ver também

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