UWAI
Uwai designa o jacaré (gênero Caiman) e, por extensão, também o nome de uma constelação na astronomia tradicional bororo.
Animal ritual
O jacaré é um animal estritamente reservado ao bari, o xamã dos espíritos.
Se um Bororo tocar o animal — mesmo acidentalmente, por exemplo durante o banho — fica obrigado a caçá-lo e entregá-lo ao xamã.
Por temor, muitas vezes evita-se pronunciar seu nome verdadeiro, substituindo-o por arogwa.
Técnica de caça
O método tradicional procura evitar luta prolongada.
O caçador aproveita o momento em que o animal abre a boca e introduz entre as mandíbulas um pedaço de madeira macia. Os dentes cravam-se na madeira, impedindo o fechamento da boca. Tornado inofensivo, o animal é abatido rapidamente.
Essa técnica também evita o rompimento da vesícula biliar — evento considerado fatal para o caçador por influência espiritual.
Tratamento ritual
O cuidado continua após a morte do animal:
- o bari deve esquartejá-lo sem perfurar a vesícula biliar
- o rompimento traria doença ou morte causada por espíritos malignos
Assim, o perigo associado ao jacaré não é apenas físico, mas espiritual.
Constelação
Na astronomia bororo, Uwai designa também uma constelação (ikuieje).
Ela não corresponde a uma única estrela, mas a um conjunto amplo de astros distribuídos pelo céu, aproximadamente nas regiões hoje identificadas como Corvus, Hydra e Virgo, podendo incluir ainda estrelas próximas à antiga Argo.
Alguns narradores distinguem inclusive um “Uwai pequeno” e um “Uwai grande”, indicando que não se trata de uma figura fixa, mas de um sistema relacional de estrelas.
Significado cosmológico
O Uwai celeste não é uma metáfora do animal terrestre.
Ele é o próprio jacaré em sua forma celeste.
Na cosmologia bororo, os seres do mundo possuem correspondentes no céu, formando um único sistema. Assim, a presença do jacaré no firmamento integra a rede de relações entre natureza, rituais e ordem do universo.
Significado cultural
O jacaré representa um ser liminar: pertence simultaneamente ao mundo natural e ao domínio espiritual.
Por isso seu contato impõe obrigações rituais e sua morte deve ser controlada pelo xamã.