Com base em semelhanças lexicais sistemáticas e em correspondências fonológicas regulares, a família Bororo é tradicionalmente composta por cinco línguas: Bororo, Umutina, Otuke, Kovareka e Kuruminaka. Com exceção do Bororo, o conhecimento disponível sobre os demais membros da família permanece bastante limitado. A classificação da língua bororo passou por diversas interpretações ao longo do tempo.
Já no final do século XIX, Karl von den Steinen (1894: 516–517) argumentava que o Bororo não pertencia nem à família Tupí nem à família Jê, contrariando posições posteriormente defendidas por Albisetti e Colbacchini (1942). No início do século XX, Créqui-Montfort e Rivet (1912, 1913), com base em comparações lexicais, propuseram uma relação genética entre o Bororo e o grupo Otuké, incluindo as línguas Kovareka e Kuruminaka.
Essa proposta foi posteriormente aceita por Loukotka (1968: 84–85). A relação entre Bororo e Umutina foi formalmente estabelecida por Rodrigues (1962), a partir do vocabulário coletado por Schultz entre 1943 e 1945 (Schultz 1952). Apesar das evidências linguísticas, não há indícios claros de proximidade cultural entre Bororo e Umutina, especialmente no que diz respeito à cultura material (cf.
Schmit 1941; Schultz 1953, 1961). O próprio Schultz, que visitou os Umutina em três ocasiões entre 1943 e 1945, observa que, embora as línguas apresentem semelhanças estruturais, não se identificam paralelos culturais significativos (Schultz 1952). Curiosamente, Camargos (2013) argumenta que Otuké, Kovareka e Kuruminaka seriam linguisticamente mais próximos do Bororo do que do Umutina.
Trabalhos linguísticos Período da coleta inicial (1826–1942) O primeiro grande período de documentação da língua bororo estende-se de 1826 a 1942, abrangendo tanto publicações quanto materiais inéditos, alguns dos quais só vieram a público muito mais tarde. A esse período pertencem também formas lexicais incorporadas à presente enciclopédia a partir de diferentes fontes históricas. O primeiro registro conhecido da língua bororo deve-se a Johann Natterer, integrante de uma expedição austríaca que chegou ao Brasil em
O material coletado por Natterer inclui listas de palavras dos Bororo da Campanha e do Cabaçal (varie
dades do Bororo Ocidental), bem como dos Bororo de São Lourenço ou Coroados (Bororo Oriental). Essas listas, acompanhadas de breves notas etnográficas, constituem fontes fundamentais para o estudo dos estágios mais antigos da língua e da cultura bororo, além de representarem os únicos registros disponíveis de algumas variedades ocidentais, embora devam ser interpretadas com cautela. A obra de Karl von den Steinen conserva ainda hoje valor científico pela seriedade e fidelidade de suas observações, apesar das críticas severas feitas por Cruz.
Em contraste, os apontamentos publicados por A. Ximeno de Villeroy em 1891 são breves e carecem de valor científico. José Augusto Caldas publicou em 1899 um vocabulário modesto, mas historicamente relevante.
Guido Boggiani forneceu um breve vocabulário com cerca de duzentas formas, geralmente bem registradas e traduzidas, apesar de alguns problemas decorrentes de interpretações equivocadas do manuscrito original. Um marco importante foi o início dos trabalhos dos missionários salesianos, com destaque para o Pe. Giuseppe Pessina, responsável pela primeira gramática com dicionário da língua bororo, publicada anonimamente em Cuiabá em
Outros contributos relevantes incluem o vocabulário coletado por Henry A
Savage-Landor, o extenso vocabulário publicado por Basílio de Magalhães, os trabalhos de Colbacchini e Albisetti, e o esboço gramatical e vocabular de Cândido Mariano da Silva Rondon, todos fundamentais para a documentação histórica da língua. Estudos modernos Entre os estudos contemporâneos, destaca-se a gramática de T. Crowell (1979), considerada a primeira descrição linguística moderna do Bororo.
Outros trabalhos relevantes incluem Nonato (2008), Camargos (2010) e Ochoa (2014). Atualmente, uma nova gramática da língua bororo está sendo preparada por Fabrício Ferraz Gerardi, com base em extenso trabalho de campo realizado nos últimos anos, com previsão de conclusão para o final de 2026.