Baraedu

Variantes: baraedubaráebarae

Singular de barae. Termo geral para “civilizado” (não indígena) e entrada histórica sobre os primeiros contatos, as colônias do Pogúbo e a atuação salesiana (1718–1902).

Singular de barae. Designa “civilizado” (não indígena), de forma geral. Logo que os Bororo conheceram os primeiros civilizados, determinaram — como clã “possuidor” deles — o clã dos Bokodori Eceráe, conforme o costume tradicional da tribo.

Provavelmente isso ocorreu porque um membro desse clã teria sido o primeiro a avistar os civilizados. Para detalhes sobre esse costume, veja aróe, “seres primaciais”. Embora algumas lendas (de cronologia impossível de determinar) mencionem civilizados, não se pode precisar a época do primeiro encontro histórico com os brancos, sobretudo porque a tribo não era litorânea.

Sem dúvida, o encontro decisivo ocorreu em outubro de 1718, com a bandeira chefiada por Antonio Pires de Campos, e logo depois com seu êmulo Paschoal Moreira Cabral, que se estabeleceu no território onde mais tarde surgiu a atual cidade de Cuiabá (Taunay 1949: 9). Ali encontraram uma nação indígena que Virgílio Corrêa Filho denomina “coxiponês”, mas que, a nosso ver — pelo estudo da toponímia — não poderia ser outra senão a dos Bororo (Corrêa Filho [1939]: 14).

Essa interpretação também se apoia no Pe. José Manoel de Siqueira, cujo manuscrito foi publicado por Couto de Magalhães (Magalhães 1934: 260–261). Note-se, ainda, que a própria forma “coxiponês” é de origem bororo: Coxipó não é mais que uma corrupção de Kujibo, isto é, “ribeirão da ave kujibo”.

Após as primeiras relações de 1718, sucederam combates violentos. Os brancos encontraram os “Aripocônê” (= Bororo) aldeados nas margens dos rios “Cuxipó Mirim, do Peixe e Butuca”, ostentando adornos de ouro — abundante nos barrancos daqueles rios (Taunay 1949: 12–13). Os Bororo, por fim desbaratados, afastaram-se das minas, e os invasores passaram a ocupar permanentemente a localidade.

Mais tarde, o poder público entregou a tarefa às forças armadas, que lograram “domar” os índios do Pogúbo (bacia do rio São Lourenço) e reuni-los em dois grupos chamados “Colônia Isabel” e “Colônia Teresa Cristina”, situados no baixo Pogúbo Cereu, rio São Lourenço. A missão foi concluída em 24 de abril de 1886, pelo então alferes Antonio José Duarte (Mendonça 1919, 1º: 176–177).

Em 19 de abril de 1895, visando confiar aos missionários salesianos a direção da Colônia Teresa Cristina, o presidente Manoel José Murtinho a cedeu por contrato n.º

Em 5 de junho de 1895, o Pe

Giovanni Balzola, acompanhado do Pe. Giuseppe Solari, do irmão leigo Giacomo Grosso e de três religiosas Filhas de Maria Auxiliadora (Ir. Frederica Hummel, Ir. Madalena Tramonti e

Ir.

Margherita Micheletto), ingressou na colônia, sendo recebido por trezentos Bororo e vinte e cinco soldados. A alma de todo esse movimento de religião e “civilização” foi Dom Luigi Lasagna, superior dos salesianos no Brasil, que cinco meses depois, em 7 de novembro de 1895, morreu aos quarenta e cinco anos em um desastre ferroviário perto de Juiz de Fora (Minas Gerais).

Em 1898, intrigas políticas, interesses pessoais e calúnias contra os missionários provocaram a expulsão dos salesianos (superior da missão: Pe. Antonio Malan). Oferecida novamente a direção da colônia aos salesianos, não foi mais aceita, embora em 1899 uma delegação de quinze Bororo tenha ido a Cuiabá pedir ao antigo diretor, Pe. Giovanni Balzola, o regresso dos missionários à colônia.

Anos mais tarde, essa colônia e os Bororo do c.i. do Pogubo Ceréu, rio São Lourenço, entraram na esfera do S.P.I.
O Pe. Antonio Malan voltou-se então para explorar um novo campo e, com o Pe. Giovanni Balzola, percorreu o planalto a leste de Cuiabá, chegando até a atual Araguaiana, nas margens do rio Araguaia.

A região ainda estava sob domínio do Bororo “indômito” que, embora aparentemente pacificado na zona do Pogubo, desencadeava vinganças no território explorado pelos missionários. Por indicação de funcionários da linha telegráfica — que cumpriam suas obrigações acompanhados por piquetes armados — os salesianos escolheram uma localidade chamada Tachos, frequentada pelos índios. Lá se instalaram em tendas em 18 de janeiro de 1902, depois de um mês de viagem a cavalo (partida de Cuiabá em 17 de dezembro de 1901), ainda sob direção do intrépido Pe.

Giovanni Balzola. Integravam a comitiva: Pe. Giuseppe Salvetto e os irmãos leigos Silvio Milanese, Domenico Minguzzi e Giacomo Grosso. As Filhas de Maria Auxiliadora eram

Ir.

Rosa Kiste (diretora), Ir. Maddalena Tramonti e Ir. Lucia Michetti.

Após ansiosa expectativa, em 7 de agosto de 1902, quatro guerreiros armados de arcos e flechas, liderados por Meriri Okwoda (mais tarde batizado Joaquim), apresentaram-se amigavelmente na missão. Foi o início da “pacificação” dos Bororo do planalto, que passaram a entrar no consórcio dos povos civilizados. A zona habitada por eles tornou-se então livre de perigos e nela surgiram e surgem fazendas e centros demográficos como Guiratinga, Poxoréu, Torixoréu, Barra do Garças, Tesouro, Alto Araguaia, Alto Garças.

Meriri Okwoda, valendo-se do direito adquirido por ter avistado por primeiro os missionários — e, portanto, por “pertencerem” a ele —, opôs-se aos excessos que seus companheiros teriam cometido por ódio aos brancos, em vista das relações de vingança existentes entre Bororo e civilizados. Nesse papel, foi apoiado e guiado por Meriri Otodyia, mais conhecido como Uke Iwagu Uo (Capitão Major).

Os índios do planalto, ao longo dos anos, estabeleceram-se nas colônias salesianas de Sangradouro e dos Tachos, sendo frequentes as visitas e estadas temporárias de muitos Bororo do Pogúbo (bacia do rio São Lourenço). O centro dos Tachos transferiu-se mais tarde para o Meruri, a poucos quilômetros de distância.

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