ba

aldeia; povoado bororo e sua disposição tradicional (casa central e casas na circunferência).

Ba: aldeia e organização espacial bororo

Em muitos textos etnográficos sobre os Bororo, a descrição da aldeia não é apenas uma questão de arquitetura: ela está profundamente ligada à organização social em metades e à subdivisão em clãs/famílias. Por isso, falar da aldeia implica falar também de como as pessoas se distribuem, se reconhecem e se orientam no espaço comunitário.


Onde se constrói uma aldeia

Tradicionalmente, a aldeia é levantada em área relativamente aberta (vegetação baixa e rala), próxima de água, evitando o interior fechado da floresta, exceto em ocupações curtas (por exemplo, para expedições de caça e pesca). Um ponto importante destacado pelos etnógrafos é que, mesmo em paradas de apenas uma noite, tenta-se manter a ordem de disposição das casas semelhante à de uma aldeia regular.


Centro da aldeia: a casa central (casa dos homens)

O primeiro passo é definir a posição da casa central, descrita como o centro de uma área ampla e mais ou menos circular. Essa casa é frequentemente apresentada como a maior construção, de formato retangular, com dimensões ajustadas à quantidade de homens da comunidade. Ela é um espaço social e ritual: ali os homens passam grande parte do dia (quando não estão em caça/pesca), produzem artefatos, conversam e descansam; jovens não casados podem dormir ali. O texto descreve ainda restrições de acesso para mulheres em circunstâncias consideradas impróprias, ligadas a normas rituais.

O interior é pensado de acordo com as metades: uma porção corresponde aos Tugarege e a outra aos Ecerae. O centro pode ter áreas reservadas às lideranças e pessoas de grande prestígio.


Casas na circunferência: cabanas e ocupação tradicional

Ao redor da casa central, na circunferência, constroem-se as demais casas/cabanas. A descrição etnográfica enfatiza que a ocupação interna de uma casa não corresponde a uma “família nuclear” no sentido ocidental (pai+mãe+filhos). Em termos bororo, a casa tende a ser relacionada à esfera da mulher e de seus filhos (matrilinearidade), enquanto o homem permanece ligado ao seu próprio clã e metade, sendo a relação conjugal atravessada por essa observação estrutural.

O texto descreve também aspectos do cotidiano material: fogueiras (muitas vezes, uma por grupo/domínio doméstico), recipientes de cerâmica, plataformas/jiraus para defumar e guardar objetos, espaços de dormir, e a presença de animais domésticos e utensílios, compondo um retrato de vida cotidiana.


Orientação e divisões internas (leste/oeste)

Um ponto analítico importante na descrição é que certas designações internas das casas se organizam em relação ao leste e ao oeste (por exemplo: ocupantes do lado leste vs. do lado oeste). O autor discute inclusive diferenças entre diagramas publicados por diversos pesquisadores e sugere que parte das aparentes discrepâncias se deve à complexidade das subdivisões internas e à multiplicidade de termos e nomes usados para grupos e subgrupos.


Termos correlatos (para navegar na Enciclopédia)

  • bai: casa/cabana (em alguns contextos, aparece como forma relacionada à noção de habitação)
  • bai mana gejewu: casa central, ligada à praça
  • Tugarege e Ecerae: metades que atravessam a organização do espaço

Fonte usada para esta entrada

Esta entrada foi elaborada a partir de: A aldeia bororo (tradução/nota de um texto de Cesare Albisetti com apresentação e aparato explicativo), onde a aldeia é descrita em relação à organização social e à disposição espacial das casas e da casa central.

Ver também

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