Awara are — O viajante
Awara are significa literalmente “possuidor do caminho”, isto é, aquele que percorreu uma trajetória e retorna — o viajante.
Entre os Bororo, a chegada de alguém após uma viagem é um momento social importante, marcado por gestos formais de reconhecimento e acolhimento coletivo.
Chegada à aldeia
Ao chegar, o viajante dirige-se:
- à casa do próprio clã, se estiver sozinho;
- à casa de sua esposa, se estiver acompanhado por ela.
Ele entra sem pedir licença e anuncia sua presença dizendo simplesmente:
- imirewu — “sou eu”, “eis-me aqui”
- itaregodu — “minha chegada”
Recepção ritual
Os parentes o recebem com um pranto ritual. Durante esse momento:
- tocam o corpo do viajante
- nomeiam partes que supostamente estariam cansadas
- mencionam as dificuldades enfrentadas na viagem
- recordam o sofrimento suportado ao longo do percurso
Às vezes o pranto é acompanhado pelo som do bápo, um grande maracá.
Após o ritual, oferecem-lhe cigarros, gesto que completa a acolhida.
Entrada pelo pátio
O viajante também pode parar primeiro no pátio, próximo ao bai mana gejewu (casa central). Nesse caso, os parentes vão buscá-lo ali e conduzem-no até a casa, onde realizam as cerimônias descritas.
Os Bororo costumam entrar na aldeia ao entardecer, horário socialmente apropriado para o retorno.
Significado social
O retorno não é tratado como um acontecimento comum, mas como uma reintegração social do indivíduo ao grupo. O pranto ritual não expressa tristeza, mas reconhecimento da ausência, da distância percorrida e do restabelecimento dos vínculos comunitários.