Mori

Vingança, recompensa, retribuição ou pagamento; princípio central de reciprocidade e desagravo funerário na sociedade bororo.

MORI

Mori designa vingança, recompensa, retribuição ou pagamento.


1. Mori: vingança

Emprega-se no sentido direto de vingança.

ex. kajao mori moge — “espera: vingar-me-ei”.


2. Mori: recompensa

A recompensa ou retribuição por um favor ou por um objeto recebido é uma obrigação social extremamente forte e tradicional.
Ninguém pode deixar de retribuir. Quem esquece — voluntária ou involuntariamente — torna-se alvo de escárnio e desprezo.

A pessoa que recebe um favor deve retribuir com alguma coisa, geralmente à sua escolha, mas às vezes conforme a tradição.

O termo pode significar também:

  • presente
  • dádiva
  • reparação de danos
  • agrado
  • mimo

Exemplos

  • Se um cão morde alguém, o ferido não se ofende imediatamente, mas aguarda o mori do dono.
    O mori costuma consistir numa espalmação de pasta vermelha de urucu.
    Se demora, considera-se ofensa social.

  • Quando duas crianças brigam e uma sai prejudicada, o pai da agressora espalma urucu na ofendida.

  • Se uma criança se fere ao tropeçar, bate-se simbolicamente no objeto causador.

  • Quem estraga ou perde objeto alheio deve dar mori ao proprietário.

  • Em ferimentos por queda ou picada de cobra, parentes aplicam urucu e plumas.

  • Em caçadas ou pescarias rituais envolvendo representante de morto, se este se fere, os parentes do defunto choram e se escarificam deixando cair sangue sobre ele.
    Depois de curado, o ferido retribui espalhando urucu nos participantes.

  • Quando alguém retorna após longa ausência, entoa-se o canto Roia Kurirewu (dos mortos) e no dia seguinte o recém-chegado recebe urucu.

Observações sociais

Quem oferece um presente frequentemente diminui o valor do objeto para desencorajar retribuição — fórmula de delicadeza que não suspende a obrigação.

A reciprocidade não é simétrica com não indígenas:
o Bororo não se considera obrigado a retribuir presentes aos brancos, mas espera compensações deles.

Velhos e doentes graves são dispensados do mori e agradecem apertando a mão do doador.


3. Mori: vingança pela morte

Quando um Bororo morre, escolhe-se um representante:

aroe maiwu (“alma nova”) ou iadu.

Sua obrigação principal é vingar o morto abatendo uma onça.
O couro é dado a um parente do defunto.

A onça recebe o nome mori e está ligada ao ritual berege ekedodu (“banquete das feras”).

Acredita-se que a morte seja causada por um bope (espírito maléfico) e que a onça seja um bope.
Matando o animal elimina-se um bope e realiza-se a vingança.


Interpretação etnográfica

Estudos posteriores mostram que o mori não é apenas compensação material, mas um mecanismo de reorganização social.

A caça do animal de vingança confere prestígio ao caçador e cria obrigações recíprocas entre famílias.
O oferecimento do mori exige contrapartidas — ornamentos, nomes ou bens — inserindo o indivíduo na rede de relações sociais.

Assim, o mori:

  • transforma dano em vínculo social
  • regula honra e prestígio
  • reintegra a pessoa substituta do morto à coletividade
  • recompõe a ordem após a morte

Mais que vingança, trata-se de um processo de restauração do equilíbrio social e cosmológico.

References

  1. Albisetti, César and Ángelo J. Venturelli (1962a). *Enciclopédia Bororo I*. Museu Regional Dom Bosco.

See also

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