Aroe Eceba Kejebo — Ritual do Gavião Real
O Aroe Eceba Kejebo é um ritual bororo de grande complexidade simbólica, associado ao gavião-real (Aroe Eceba 'matador de espíritos'), ave dotada de profundo significado espiritual e ritual. O ritual articula morte ritual, oferenda, direitos de primazia clânica, confecção de adornos e uma cerimônia pública marcada por canto, dança e forte intensidade espiritual.
Morte do gavião
Após a morte do gavião, o matador o deixa no Bororo, o pátio central da aldeia, próximo ao Baito, a casa central. Em seguida, dirige-se à casa de um parente de um finado ao qual deseja oferecer o gavião como mori (retribuição ritual). O ofertante pega o parente pela mão, conduzindo-o até o pátio, onde realiza a entrega formal do gavião, acompanhada da fórmula ritual apropriada.
Oferenda
A pessoa que recebe o gavião — ou alguém por ela designado — executa o canto Aroe Eceba batarudodu, o canto de oferenda que formaliza a aceitação ritual do animal.
Retirada das penas
O gavião é levado à casa de um parente da mulher de quem o recebeu. Nesse local, os Apiborege, considerados os donos rituais do gavião, retiram todas as penas da ave. Durante esse processo, entoa-se o canto Baadojeba ekeroía, pertencente ao grupo dos Baado Jebage.
O corpo do gavião é então untado com urucum e enterrado atrás da casa dos Apiborege.
Distribuição das penas
As penas do rabo (Oiaga), as maiores, são distribuídas entre os membros do grupo dos Baado Jebage, respeitando-se rigorosamente a ordem de importância ritual.
Três penas menores são destinadas ao grupo dos Kie e uma ao grupo dos Iwagududoge. Estes últimos recebem também as Aroe Eceba upebo, penas brancas do abdome do gavião, utilizadas para a confecção de coroas de cabeça.
As penas das asas (Ikawa) são distribuídas entre os Baado Jebage e um parente do finado.
Confecção dos adornos rituais
O principal adorno ritual é o Boe etao kajajawu, também chamado Aroe Eceba. Ele é confeccionado com penas das asas do gavião, alongadas com taquarinhas. A base das penas é ornamentada com penas brancas de outras aves e penas vermelhas ou amarelas de araras. As penas são fortemente amarradas entre si.
Para fixação na cabeça, confecciona-se um Arireu, aro circular de madeira colocado por dentro do adorno. As duas penas centrais do rabo são posicionadas na parte frontal.
Quando há abundância de penas das asas, estas podem também ser utilizadas na confecção de flechas. As penas do rabo servem ainda para fabricar Boe ekiga, espécie de prego ou alfinete de cabeça.
São confeccionados também vinte Icira akiri: taquarinhas de cerca de dois metros, revestidas de penugem branca, com adornos variados na extremidade — penas, linhas coloridas, bicos de aves, penas do peito de tucano ou pele de pica-pau. O adorno mais conhecido é o Baruboro, denominado “porta do céu”.
Ritual
O ritual ocorre aproximadamente um mês após a distribuição das penas. Na tarde anterior ao dia principal, realiza-se o canto de invocação dos espíritos sobre todos os adornos reunidos. À noite, entoa-se o Aroe Eceba paru, canto de abertura ritual, comum aos grandes rituais bororo.
Na manhã seguinte, no Bororo, constrói-se a Baia, um fechamento circular feito com folhas de palmeira. Essa etapa vespertina é estritamente proibida a mulheres, crianças e homens não iniciados.
À tarde, enquanto mulheres e crianças permanecem recolhidas em suas casas, os Aroedoge (homens e jovens iniciados) entram na área ritual, onde se adornam com seus símbolos espirituais. Dois deles recebem, além dos adornos habituais, o Aroe Eceba e os Icira akiri, formando um conjunto ritual de grande impacto visual.
Esses dois iniciados lideram a formação circular. O ritual é acompanhado pelo som do Bapo rogo (pequeno chocalho) e pela marcação rítmica grave do Pana, instrumento composto por três grandes cabaças unidas, que emitem som grave ao serem sopradas. Todos marcam o ritmo com os pés, enquanto os portadores dos grandes adornos balançam a cabeça, produzindo um efeito cenográfico impressionante, em profundo silêncio coletivo.
Após várias voltas, encerra-se a parte central do ritual. A Baia é desfeita, os Icira akiri são retirados, e mulheres e crianças retornam ao pátio. Todos então dançam o canto Aroe rerudo, a dança das almas, e finalizam com a dança alegre do Jure, que imita os movimentos da sucuri.
O ritual se encerra com o transporte dos adornos para a casa dos Baado Jebage, onde um cantor entoa novamente o Baadojeba ekeroía.
Observação etnográfica
Há muitos anos o ritual do Gavião Real não é mais realizado, e poucos Bororo atuais participaram diretamente de sua execução. No dia 28 de janeiro de 2026, na escola da aldeia de Tadarimana, sob orientação do professor e linguista Fabrício Gerardi, um grupo composto por professores, anciãos e anciãs bororo reuniu-se para assistir ao vídeo do ritual realizado em 1988, na aldeia do rio Garças, Terra Indígena de Meruri.
A partir dessa exibição e de debates coletivos, foi elaborado o presente relatório, que complementa as informações registradas no primeiro volume da Enciclopédia Bororo (páginas 108–112).