O termo adugo biri designa, em primeiro lugar, a pele da onça-pintada. Por extensão, refere-se também a um tipo específico de boe ekudawu (‘esteira dos Bororo’), confeccionada com pele de jaguar e utilizada em contextos rituais.
Cerimônias relativas à pele de jaguar
Cerimônias preliminares
No contexto do Aroe Emeru (‘caçada ritual’), o Aroe Maiwu (‘representante de um defunto’) procura abater uma onça como mori (‘retribuição’) destinada aos parentes de uma pessoa falecida. A pele da onça ocupa papel central nesse complexo ritual, sendo objeto de uma série de cerimônias específicas. Logo após a morte do animal, o matador executa algumas voltas ao redor da onça e também ao redor de um parente próximo do defunto.
Em seguida, segurando a cauda do jaguar, realiza a entrega simbólica da fera a esse parente, que se tornará o legítimo possuidor do couro. Nesse momento, pronuncia as seguintes palavras rituais: ía boerewu mori: akudawu akuie akao gajejewy, adugo reno ‘Eis que aqui, como retribuição por aquele que morreu, está a pele de jaguar, que te servirá de tapete, os dentes que serão o teu colar e as garras que te cingirão como coroa.’ Imediatamente após essa entrega simbólica, os participantes executam o Barege Ewygejeboe (‘Canto sobre as feras’).
Em seguida, o Aroe Maiwu carrega o animal inteiro sobre as costas até o pátio da aldeia, onde a mesma cerimônia de entrega é repetida. Quando, como ocorre com frequência, o representante do defunto não é o responsável direto pela morte do felídeo, ele não possui o direito de conduzir a onça durante todo o trajeto. Nesse caso, o matador transporta o animal até próximo da aldeia, onde então o Aroe Maiwu o recebe para a continuação do ritual.
Chegando à aldeia, a onça é esfolada, suas entranhas são cuidadosamente examinadas e o corpo é esquartejado. A observação dos intestinos tem uma função ritual importante: busca-se identificar restos de alimentos ingeridos pelo animal, pois o nome desse alimento servirá de base para a formação de alcunhas rituais atribuídas ao caçador, ao defunto, a seus pais e ao seu representante. Por exemplo, se forem encontrados restos de iwagy (‘centopeia’), o matador receberá o nome Uke Iwagy Epa (‘matador do animal que se alimentou de centopeia’); o defunto será denominado Aroe Uke Iwagy Epa (‘alma cujo alimento é a centopeia’); a mãe será chamada Aroe Uke Iwagy Uce (‘mãe daquele cujo alimento é a centopeia’); e o pai, Aroe Uke Iwagy Uo (‘pai daquele cujo alimento é a centopeia’).
Cerimônias propriamente ditas
Dando continuidade ao ritual, o pai do defunto transporta a pele, as garras e os dentes do jaguar até a choupana do clã ao qual o falecido pertencia. Nesse local, a pessoa que recebeu simbolicamente a onça — ou outro cantor considerado apto — entoa novamente o Barege Ewygejeboe, acompanhado pelos bapodoge kurirewuge (‘grandes maracás’). Enquanto isso, alguns homens dirigem-se para buscar o matador, a quem cabe, por privilégio ritual, abrir furos ao redor da periferia do couro.
Por esses furos será passada uma corda que permitirá manter a pele estendida durante o processo de secagem. Em seguida, uma parenta próxima do defunto realiza um banho ritual no matador, derramando água sobre suas costas com um recipiente apropriado. Concluídas essas etapas, a mesma mulher reúne os parentes homens do falecido para decidir formalmente os possuidores definitivos do couro, dos dentes e das garras do felídeo.
Em regra, os dentes pertencem à mãe do defunto ou a uma parente próxima, enquanto o couro cabe ao parente que recebeu a entrega simbólica da onça logo após a caçada. Nessa mesma assembleia é igualmente determinado o possuidor do adugo buregi (‘garras de jaguar’). Durante a tarde, um parente do defunto convida todos os presentes para entoar cantos, inicialmente na choupana do falecido e, em seguida, no bai mana gejewy (‘choupana central’).
Os cantos estendem-se por toda a noite ao redor da pele, com a participação tanto de homens quanto de mulheres. São executados cantos fúnebres e, ao amanhecer, um canto voltado à caça. Encerrados os cantos, o couro é levado para a choupana do clã do defunto.
Com isso, concluem-se as cerimônias relativas ao adugo biri (‘pele de jaguar’) imediatamente após a caçada. Rituais semelhantes aplicam-se também ao aigo biri (‘pele de suçuarana’) e às peles de outros felídeos de porte comparável, como o aipoburewu (‘jaguatirica’), embora com pequenas variações.
Variantes e procedimentos técnicos
Variante relativa às cerimônias preliminares
Quando a aldeia se encontra muito distante do local da caçada, após a primeira entrega simbólica da fera entoa-se imediatamente o Canto sobre as feras. Em seguida, o animal é esfolado, as entranhas são examinadas, o corpo é esquartejado e transportado em partes até a aldeia. No pátio central, procede-se novamente à entrega simbólica — desta vez apenas da pele — e, a partir desse ponto, as cerimônias seguem conforme descrito anteriormente.
Sistema de estiramento e secagem da pele
A pele do jaguar é estirada entre quatro varas por meio de cordas que atravessam os furos previamente abertos pelo representante do defunto. Após a secagem, o couro adquire aproximadamente a forma de um retângulo. Para isso, a pele das pernas anteriores é costurada junto à da cabeça, enquanto a dos membros posteriores e grande parte da cauda são cortadas.
Com a porção da cauda confecciona-se o adugo o, uma espécie de coroa ritual. Caso não haja tempo suficiente para estirar a pele no próprio dia da caçada, essa operação é adiada para o dia seguinte, permanecendo o couro suspenso em uma vara fincada no solo, ao redor da qual se realizam as cerimônias.
Considerações críticas
Von den Steinen atribui de forma incorreta a posse da pele de jaguar a determinadas pessoas. Na realidade, o possuidor é sempre um parente do defunto, sendo a escolha feita pelo caçador (Steinen 1897: 389). Colbacchini e Albisetti afirmam que aos nomes de Bororo vivos corresponderiam outros nomes a serem usados após a morte, o que é inexato, pois o nome ritual do defunto é determinado por circunstâncias acidentais, como o alimento encontrado nas entranhas do animal ou o local da caçada.